Inflação desacelera a 0,43% em abril; alimentos e remédios pressionam

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A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), desacelerou a 0,43% em abril, após marcar 0,56% em março, apontam dados divulgados nesta sexta (9) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O novo resultado veio praticamente em linha com a mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,42%, de acordo com a agência Bloomberg. O intervalo das estimativas ia de 0,38% a 0,6%.

O IPCA de 0,43% é o maior para meses de abril desde 2023 (0,61%). O grupo dos alimentos até subiu menos do que em março, mas voltou a pressionar o índice, ao lado do reajuste dos medicamentos.

Em 12 meses, o IPCA passou a acumular alta de 5,53% até abril, acima dos 5,48% registrados até março. Nesse recorte, a taxa é a maior desde fevereiro de 2023 (5,6%).

Com isso, o acumulado se distanciou do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).

Em uma tentativa de conter os preços, a instituição promoveu um ciclo de aumento na taxa básica de juros, a Selic, que chegou nesta semana a 14,75% ao ano. Trata-se do maior nível em quase duas décadas.

O choque dos juros busca esfriar a demanda por bens e serviços e, assim, reduzir a pressão inflacionária. O possível efeito colateral é a perda de fôlego da atividade econômica, já que o crédito fica mais caro para consumo e investimentos produtivos.

Entre os nove grupos de produtos e serviços do IPCA, a maior variação em abril foi registrada pelo ramo de saúde e cuidados pessoais (1,18%), seguido de vestuário (1,02%) e alimentação e bebidas (0,82%).

Os alimentos desaceleraram em relação a março (1,17%), mas foram responsáveis pelo principal impacto no índice do mês passado (0,18 ponto percentual).

“O grupo alimentação é o de maior peso no IPCA, por isso, mesmo desacelerando, exerce impacto importante”, disse Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IBGE.

CAFÉ ACUMULA INFLAÇÃO DE 80,2%

Dentro de alimentação e bebidas, a alimentação no domicílio avançou 0,83% em abril. Contribuíram para o resultado as altas da batata-inglesa (18,29%), do tomate (14,32%) e do café moído (4,48%).

Em 12 meses, o café acumula disparada de 80,2%. É a mais intensa desde a entrada em circulação do real, em julho de 1994, há quase 31 anos, segundo o IBGE.

O café também mostra a maior variação acumulada entre os 377 bens e serviços (subitens) pesquisados no IPCA. O produto aumentou em meio a problemas de oferta com questões climáticas.

Do lado dos alimentos em queda no mês de abril, o IBGE destacou a cenoura (-10,4%), o arroz (-4,19%) e as frutas (-0,59%). O ovo recuou 1,29%, após fortes avanços de 13,13% em março e de 15,39% em fevereiro.

Entre os grupos, a segunda maior pressão no IPCA (0,16 ponto percentual) foi gerada por saúde e cuidados pessoais.

Nesse caso, houve influência da alta dos produtos farmacêuticos (2,32%), após autorização de reajuste dos medicamentos. Itens de higiene pessoal também subiram (1,09%).

Em termos de impacto, os produtos farmacêuticos geraram a principal pressão individual no IPCA de abril (0,08 ponto percentual). Do lado das quedas, o destaque veio passagem aérea (-0,09 ponto percentual), que recuou 14,15%.

O bilhete de avião ajudou a provocar uma redução de 0,38% no ramo dos transportes. Esse foi o único dos nove grandes grupos do IPCA a apresentar queda no mês passado.

O resultado dos transportes também refletiu a baixa dos combustíveis. Houve redução no óleo diesel (-1,27%), no gás veicular (-0,91%), no etanol (-0,82%) e na gasolina (-0,35%).

META DE INFLAÇÃO E PROJEÇÕES

O BC passa a perseguir a meta de inflação de maneira contínua em 2025, abandonando o chamado ano-calendário (janeiro a dezembro).

No novo modelo, o alvo será considerado descumprido quando o IPCA acumulado permanecer por seis meses seguidos fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto) —até abril, o índice não voltou para essa faixa. O centro da meta é de 3%.

O mercado financeiro projeta IPCA de 5,53% no fechamento deste ano, conforme a edição mais recente do boletim Focus, divulgada na segunda (5) pelo BC.

A previsão caiu nas últimas três semanas da pesquisa, mas segue distante do teto de 4,5%.

De acordo com o IBGE, a inflação dos serviços, foco de atenção do BC, desacelerou de 0,56% em março para 0,43% em abril. No acumulado de 12 meses, o número ainda é de 6,03%, acima do IPCA geral (5,53%).

“Com o mercado de trabalho aquecido, o cenário segue bastante desafiador para a inflação”, diz a economista Claudia Moreno, do C6 Bank.

Ela afirma que os serviços subjacentes, que excluem itens mais voláteis como passagens aéreas, acumulam alta de 6,7% até abril, acima dos 6,4% até março. Claudia também aponta que os bens industriais aceleraram em 12 meses, de 3,7% para 4,1%.

“Ainda que a queda nos preços das commodities no exterior possa aliviar a pressão sobre os alimentos e bens industriais no curto prazo, fatores domésticos, como o mercado de trabalho forte e a perspectiva de uma depreciação do câmbio, devem manter a inflação pressionada”, projeta.

O governo Lula (PT) tem comemorado dados positivos na área econômica, incluindo o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), o aumento da renda e a redução do desemprego para níveis mínimos da série histórica.

Por outro lado, a inflação dos alimentos virou preocupação para o presidente e seus apoiadores.

A carestia afeta sobretudo as famílias mais pobres e é apontada como uma das principais razões para a queda da aprovação de Lula no começo de 2024. Os alimentos subiram de preço em um cenário de problemas climáticos e dólar alto.

“A inflação continua mostrando um qualitativo ruim e incompatível com as metas de inflação”, afirma a gestora Kínitro Capital.

Para a casa, os dados do IPCA reforçam a necessidade da política monetária “significativamente contracionista” do BC.

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