Nesta quarta-feira, 13 de maio, a assinatura da Lei Áurea completa 138, documento que abolia, no papel, a escravização de pessoas negras no Brasil – o último país das Américas a tomar essa medida. Passado menos de um século e meio, ruas de Salvador ainda homenageiam figuras que contribuíram negativamente para esse capítulo da história do país.
A escravização de pessoas tomadas de países africanos – como Angola, República do Congo, Nigéria, Benin e Togo – foi um processo que durou do século 16 ao século 19 e estima-se que mais de 4 milhões de homens, mulheres e crianças foram explorados nesse processo.
Historiadores, como Gilmara Santos, especialista em História Social e Cultura Afrobrasileira e Indígena, explicam que a abolição da escravatura foi conquistada através de um conjunto de fatores principalmente pelas revoltas negras durante todo o século 19 e o fortalecimento dos quilombos, como a Revolta dos Malês, a Balaiada, e o Quilombo dos Palmares.
“Durante anos e anos e anos foi passado para a população brasileira que esse processo de abolição no Brasil foi de tornar amigável, democrática, e a gente sabe que na realidade não foi isso”, destacou Gilmara Santos.
Paralelamente, a Coroa Portuguesa já estava se articulando para a assinatura da Lei Áurea. Além as revoltas internas, a Corte à época se via pressionada pelos ingleses, que tinha interesses comerciais na abolição e promovia a captura de navios negreiros para “barrar” a prática, e pelas notícias das abolições em países vizinhos.
Um outro aspecto destacado por Santos foi o de que, apesar da abolição, os ex-escravizados não receberam nenhum tipo de reparação ou suporte para reerguer ainda, aspecto que faz com que diversos especialistas considerem o processo de abolição no Brasil incompleto.
Hoje, 138 anos depois, os efeitos dessa época e da distorção da história do 13 de maio ainda são perceptíveis, inclusive, em placas da capital baiana que prestam homenagens à princesa Isabel e a traficantes de pessoas. Para Gilmara Santos, isso se deve a uma falta de entendimento do país sobre o período e de acesso a educação adequada.
“O Brasil ainda é um país que tem dificuldade de entender o racismo aqui dentro. O Brasil é um país com dificuldade na educação, porque a educação que vai trazer esse processos históricos, para poder explicar o que houve, de fato no Brasil. Poucas pessoas têm acesso aos arquivos públicos brasileiros. Você vê, dentro das comunidades periféricas, quem tem acesso? Alguns cursos da faculdade até têm acesso a um arquivo público brasileiro para poder entender esse processo de escravidão aqui. […] Se a gente não sabe da história, então não tem como a gente não romper com algumas manifestações”, concluiu a especialista entrevistada pelo bahia.ba.
Tendo em vista essa realidade, diversos projetos buscam mitigar o apagamento da história brasileira e suas contradições, a exemplo do Salvador Escravista. No entanto, Gilmara Santos também ressaltou a importância de garantir o cumprimento de leis que valorizam a história negra e indígena na educação brasileira.
Confira a lista de lugares em Salvador que homenageiam nomes da escravidão no Brasil
Avenida Princesa Isabel, Barra

Contrariando a narrativa que exalta a Princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea, o entendimento contemporâneo não tem mais a figura como figura central do processo de abolição, esvaziando o real sentido do processo de libertação das pessoas negras no Brasil e contribuindo para o apagamento dos anos de exploração promovidos pela Coroa Portuguesa no país.
Rua do Bângala, Nazaré

O nome desta Rua homenageia o senhor de engenho, proprietário de escravos e ex-capitão-mor em Angola, Balthazar de Aragão, também conhecido como O Bângala, ex-morador do local.
Historiadores descrevem que Bângala viveu uma vida de ostentação. A comando de expedições na fronteira da Zâmbia, o homem chegou a capturar mais de 1.400 africanos.
Elevador Lacerda, Centro

Não ser panorâmico talvez seja um dos menores problemas ao redor do Elevador Lacerda. O ponto turístico projetado por Antonio de Lacerda foi nomeado, inicialmente de Elevador da Conceição. No entanto, em 1896, o nome foi trocado para homenagear o seu criador.
Lacerda era filho de um negociante português naturalizado brasileiro chamado Antonio Francisco de Lacerda. Com o falecimento do pai, Antônio de Lacerda, o filho, passou a gerenciar os negócios do pais em atividades lícitas e ilícitas, como o tráfico negreiro. Oito anos após a proibição do comércio transatlântico, Lacerda continuava atuando no ramo. Também há registros de que o comerciante intermediava a venda de pessoas escravizadas em sua casa comercial.
Praça Teodósio Rodrigues de Faria, Bonfim

Teodósio Rodrigues de Faria foi um capitão de navio mercante e é o nome homenageado em uma praça próxima à igreja do Senhor do Bonfim, local onde ele foi enterrado por sua devoção ao santo. Uma rua no local recebeu o mesmo nome.
Rodrigues chegou a Salvador na década de 1740 e, já com um negócio estabelecido em frente à Alfândega, na localidade de Nossa Senhora da Conceição da Praia, decidiu investir no tráfico negreiro.
Apesar de o tráfico ser posto em dúvida por alguns, registros históricos sobre a quantidade de navios em posse de Teodósio e pelas suas parcerias comerciais. Teodósio, através de uma sociedade com José Pereira da Cruz, um capitão de navio negreiro, foi dono de 53 pessoas, que foram vendidas após o falecimento de Cruz.
Rua Barão de Cotegipe, Calçada

O voto contra a Lei Áurea e a apresentação de um projeto para indenizar os ex-donos de negros escravizados foram os últimos atos da vida de João Maurício Wanderley, conhecido como barão de Cotegipe
Essa figura política foi um dos principais escravocatas dos últimos anos do Império no Brasil
Suas heranças e suas articulações políticas estão entre os principais destaques do seu histórico. Só do pai, Wanderley herdou 50 escravizados; do dote do casamento foram 160. Enquanto presidente do Conselho de Ministros, Cotegipe reprimiu violentamente o movimento abolicionista, com espancamentos através das forças pública e medidas fora da lei.



